Quem distribui recebe mais: o que um casamento me ensinou sobre dar
Fé

Quem distribui recebe mais: o que um casamento me ensinou sobre dar

"Num casamento vi duas famílias lidarem com o dinheiro de formas opostas. Provérbios 11:24 explica o que estava em jogo, e porque é que quem retém acaba a perder."

Fui convidado para um casamento. A noiva angolana, o noivo de outra terra, e as duas famílias na mesma sala. Fiquei a assistir, como quem trabalha com imagem e não consegue desligar o olho.

Quem distribui recebe mais: o que um casamento me ensinou sobre dar

A certa altura, os familiares do noivo levantaram-se e começaram a distribuir dinheiro à volta da noiva. Não foi um gesto discreto. Via-se o investimento que aquela gente tinha feito para estar ali, e via-se a alegria com que largavam o que traziam.

Depois olhei para o resto da sala. E foi aí que a coisa me ficou na cabeça.

O versículo que me veio à cabeça

Provérbios 11:24 diz que há quem distribua e ainda assim receba mais, e há quem retenha mais do que é justo e acabe a perder.

Naquele casamento, vi as duas metades do versículo no mesmo sítio, à mesma hora.

Não escrevo isto para julgar ninguém que estava naquela sala. Escrevo porque me reconheci na segunda metade mais vezes do que gostaria.

Porque é que nos agarramos

O nosso povo saiu da escravatura. Passou fome a sério, e não há muito tempo. Isso não desaparece numa geração.

Quem aprendeu que o pouco é a única coisa entre si e o nada, aprende a fechar a mão. Não por mesquinhez. Por medo que tem história, e uma história verdadeira.

O problema é que o medo continua a dar ordens muito depois de a ameaça ter passado. A pessoa já tem o suficiente, já tem coisas em casa que não usa há dois anos, e continua a agarrar como se estivesse no pior ano da sua vida.

E aqui entra a parte dura do versículo: reter mais do que é justo não protege. Custa.

O que acontece a quem distribui

Repare nas empresas que faturam de verdade. Quase todas têm uma causa agarrada ao nome. Não é acidente nem é só marketing.

O MrBeast construiu poços em África e deu casas a pessoas que não tinham. Fez isso com o dinheiro que ganhou, e não ficou mais pobre. Ficou maior.

Não é que essa gente seja especial. É que perceberam cedo uma coisa que a maioria passa a vida a adiar: o que sai da mão aberta volta por caminhos que não dá para desenhar antes.

Isto não é teoria religiosa. É como o trabalho funciona

Você dá o seu tempo e recebe o pagamento. Dá atenção ao cliente e recebe a recomendação. Dá o trabalho bem feito antes de o cliente pedir e recebe o contrato seguinte.

Nunca vi ninguém construir reputação a guardar. Construir reputação é dar primeiro, várias vezes, antes de haver garantia nenhuma de retorno.

No meu ofício isto é literal. As pessoas que me procuram hoje chegaram quase todas por alguém a quem entreguei mais do que tinha sido combinado.

O teste prático

Deixo-lhe o exercício que fiz a mim mesmo depois daquele casamento:

  • Olhe para o que tem em casa e não usa há mais de um ano. Roupa, equipamento, livros, material de trabalho parado.
  • Escolha uma coisa. Não a pior que tem. Uma que ainda presta.
  • Pense em alguém concreto para quem aquilo resolveria um problema real esta semana.
  • Entregue sem anunciar, sem fotografar e sem contar a mais ninguém.

Se sentir um aperto ao fazer isso, repare bem nesse aperto. Ele é a prova de que o versículo estava a falar consigo.

O que fica

Quem guarda com força vê escorregar das mãos precisamente aquilo que estava a apertar. Já vi acontecer com dinheiro, com oportunidades e com pessoas.

E quem distribui, recebe. Não necessariamente na mesma moeda, nem no mesmo mês. Mas recebe.

O maior princípio da vida é esse, e ele atravessa a fé, a família e o negócio sem mudar de forma: dar é a condição para receber, e não o contrário.

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