
Prazo é carácter: porque entregar a horas é assunto espiritual
"Dá para falar de Deus o dia inteiro e perder a credibilidade por um prazo prometido e não cumprido. O cliente não vê a sua oração, vê a sua entrega."
Dá para falar de Deus o dia inteiro nas redes sociais e perder a credibilidade por um prazo que prometeu e não cumpriu.
O cliente não vê a sua oração. Vê a sua entrega.
A parte que ninguém discute
Há um tipo de testemunho que não precisa de palavra nenhuma: entregar no dia em que disse que entregava.
É raro, e por ser raro nota-se. Quem já trabalhou com fornecedores em Angola sabe o quanto se ouve "está quase" e o quanto isso quer dizer pouco.
Quando alguém cumpre, isso fica. E quando falha depois de ter dito muito, também fica, e apaga o que foi dito antes.
Porque é que falhamos o prazo
Quase nunca é preguiça. É quase sempre uma destas três coisas.
- Prometer para agradar. O cliente pergunta se dá para sexta, você sente que dizer não vai estragar a conversa, e diz que sim. O prazo nasceu já comprometido.
- Não contar com o imprevisto. O trabalho em si cabia no tempo. O que não cabia foi a revisão, o ficheiro que veio errado, a semana em que tudo apareceu ao mesmo tempo.
- Aceitar mais do que cabe. Dizer sim a tudo porque recusar dá medo, e depois distribuir o atraso por todos os clientes em vez de o concentrar num.
As três têm a mesma raiz: dizer não no momento certo é mais difícil do que falhar mais tarde.
O que fazer, concretamente
- Dê o prazo em que acredita, não o que agrada. Se é quarta, diga quarta, mesmo que o cliente queira segunda. A conversa difícil hoje evita a conversa pior daqui a uma semana.
- Acrescente a margem antes de dizer o número. Pense no tempo real e junte a folga para o imprevisto. Essa folga faz parte do prazo, não é um extra.
- Avise cedo quando souber que vai falhar. Avisar com três dias é um contratempo. Avisar na véspera é um problema. Avisar depois é uma quebra de confiança.
- Se prometeu, cumpra mesmo que saia caro. Principalmente se sair caro. É aí que se percebe se a sua palavra tem preço.
Como avisar de um atraso sem queimar a relação
Há uma forma de dar a má notícia que mantém a confiança, e outra que a destrói mesmo quando o atraso é pequeno.
- Diga primeiro a data nova. O cliente quer saber quando, não porquê. A explicação vem depois, curta.
- Não invente motivo. Se foi má gestão sua, diga que foi. Quem inventa um problema técnico uma vez, tem de inventar outro na próxima.
- Entregue alguma coisa. Nem que seja uma parte, um rascunho, uma versão parcial. Mostra que existe trabalho feito e não só desculpa.
- Não repita. Um atraso avisado cedo perdoa-se. Dois seguidos passam a ser quem você é.
O prazo começa no orçamento
Boa parte dos atrasos nasce antes do trabalho começar, na forma como o pedido foi aceite.
Quando o âmbito não está escrito, o trabalho cresce sem que o prazo cresça. Três rondas de alterações que ninguém combinou ocupam o tempo que estava reservado para terminar.
Escrever o que está incluído, quantas revisões entram e o que acontece quando o cliente pede mais não é desconfiança. É a condição para poder cumprir o que prometeu.
Prazo não é só com clientes
A mesma coisa vale para o que ninguém fiscaliza. A hora que você disse a um amigo. O dia em que ia ligar à sua mãe. O compromisso que assumiu na igreja e foi empurrando.
Quem falha no que ninguém cobra acaba por falhar no que é cobrado. O hábito não distingue.
O que fica
Honrar a palavra é das poucas coisas que pregam sem dizer nada. E das poucas que, quando falham, apagam tudo o que foi dito antes.
Se não dá para cumprir, não prometa. Se prometeu, cumpra.
Prazo é carácter, e o seu carácter está a ser lido por pessoas que nunca lhe vão dizer que o estava a observar.
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