O caminho do insensato parece certo aos seus próprios olhos
Fé

O caminho do insensato parece certo aos seus próprios olhos

"Provérbios 12:15 distingue quem se acha certo e quem ouve conselho. Numa geração que confunde acesso à informação com experiência, essa diferença decide trajectórias."

Nunca houve tanto acesso à informação como agora, e ao mesmo tempo nunca foi tão fácil confundir isso com saber viver.

O caminho do insensato parece certo aos seus próprios olhos

Provérbios 12:15 diz: "O caminho do insensato é reto aos seus próprios olhos, mas o que dá ouvidos ao conselho é sábio."

A ilusão do conhecimento

Com vídeos curtos e artigos a um clique, parece que há acesso a toda a experiência do mundo. E isso gera uma ilusão perigosa: achar que ler sobre algo equivale a tê-lo vivido.

Alguém que viu vinte vídeos sobre gestão de dinheiro sente-se preparado para decidir sozinho, sem precisar de um conselheiro que já geriu dinheiro a sério, com erros pagos do próprio bolso. A informação substitui a experiência na cabeça, mas não na realidade.

O insensato deste provérbio não é estúpido. É alguém convencido de que o seu caminho está certo, precisamente porque nunca o confrontou com outra perspectiva.

Porque é que o próprio julgamento engana

Não existe engano pior do que enganar-se a si mesmo, porque não há forma de se defender contra ele. Quando o erro vem de fora, repara-se. Quando vem da própria certeza, passa despercebido até ser tarde.

Um versículo de 1 Samuel diz que nenhum homem prevalece pela sua própria força. A ideia repete-se aqui, noutra roupagem: ninguém caminha bem apoiado só no seu próprio julgamento, por mais informado que se sinta.

A geração que já ouviu conselho a mais

Há um cansaço real em muitos jovens: sentem que já ouviram conselho a mais, dos pais, dos mais velhos, de quem acham que já não entende a época actual.

E nalguns casos até têm razão, o conselho pode vir mal dado. Mas concluir daí que já não é preciso ouvir ninguém é precisamente o erro que o provérbio descreve. Quem se acha certo aos próprios olhos deixa de testar as próprias decisões contra qualquer referência exterior.

Quem ouve conselho tem acesso a algo que nenhum vídeo dá: um erro que já foi cometido antes, por alguém que pagou o preço, e que agora o pode poupar a si.

O filtro que ainda é preciso

Ouvir conselho não é obedecer a tudo o que se ouve. Há conselhos bons e conselhos maus, e discernir entre eles é parte do trabalho.

O filtro não é "quem fala é mais velho, logo tem razão". É "esta pessoa já viveu o que estou prestes a viver, e o resultado que teve é um que eu quero?" Esse teste separa o conselho que vale de quem só fala por falar.

O mesmo erro no trabalho

Isto não fica só nas decisões de vida pessoal. No trabalho vê-se o mesmo padrão com outra roupagem.

Há quem recuse feedback de um cliente ou de um colega mais experiente porque "já sabe o que está a fazer", e entregue sempre a mesma qualidade, convencido de que o problema é sempre de quem recebe o trabalho. Essa pessoa também tem o caminho reto aos seus próprios olhos.

Quem cresce de verdade numa área é normalmente quem pede para ser corrigido antes de entregar, não só depois de falhar. O conselho pedido a tempo custa o orgulho de uma pergunta. O conselho recusado custa o cliente inteiro.

Um exercício concreto

  • Escolha uma decisão que está a adiar ou a tomar sozinho.
  • Identifique alguém que já passou por uma decisão parecida, de preferência com o resultado que deseja.
  • Pergunte, antes de decidir. Não depois.
  • Se a resposta contrariar o que já tinha decidido, não descarte por desconforto. Pese.

Quem dá ouvidos ao conselho é sábio. Não porque deixa de pensar por si, mas porque aceita que o seu próprio olhar, sozinho, tem um ponto cego que só outra pessoa consegue ver.

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